Entre Brasil e Japão, há diferenças engraçadas no que se refere ao jornalismo. No Brasil, o curso é um dos mais procurados nos vestibulares e muitas empresas do ramo só admitem quem seja formado na área. A lei que torna isso compulsório está sempre sendo discutida. Por essas e outras, há muitos que trabalham sob o esquema do free lance. Já no Japão, há poucas faculdades que oferecem o curso e não é necessário o diploma para o exercício. Entretanto, a vida do free lancer aqui não é fácil.
No Japão, existem os Kisha Club (kisha significa “repórter”) em cada órgão público e nas grandes empresas. Funciona como uma espécie de assessoria de imprensa, com a diferença de que esses clubes restringem o acesso de jornalistas free lance, de revistas e não-filiados em geral. Os estrangeiros só podem participar quando for de assuntos de interesse internacional. A ação dos clubes é mais marcante em pautas relacionadas à política.
Provavelmente existe coisa similar no Brasil, embora talvez não seja formalizado.
Os clubes são amplamente criticados tanto dentro quanto fora do Japão, sob a alegação de que se trata de censura.
O motivo alegado para sua existência é curioso. Os clubes dizem que é para evitar que especialmente os órgãos políticos controlem a informação, ou seja, que estão lá para garantir que a informação seja divulgada.
As críticas a esse sistema são muitas. Além da questão da censura, há o problema da acomodação por parte dos jornalistas do clube, que praticamente recebem pronto o que pode ser divulgado. Portanto, não cumprem a função do ofício, como contestar, conferir e investigar. Algumas províncias estão banindo esse sistema.
O problema é que esses clubes são dominados também pelos principais jornais do país, que, por sua vez, também controlam as redes de televisão.
O papel de investigar e contestar acaba ficando com as revistas e os semanários, muitas vezes tachados de sensacionalistas. É mais ou menos o que acontece no filme “Homens de Preto I”, em que o personagem de Tommy Lee Jones, um agente responsável pelo controle de alienígenas na Terra, fica sabendo sobre os aliens ao ler os tablóides sensacionalistas que não têm pudores de divulgar tais notícias – verdade ou não.
Assim, no Japão, muitos pesquisadores dizem que, para ficar sabendo do que acontece no país, é preciso ver a TV, ler o jornal e ler um semanário – no mínimo.
Apesar da maior parte das empresas de comunicação já terem sua versão online, é nítida a postura mais conservadora em relação às chamadas mídias tradicionais. Além do modelo de negócio na internet ainda não ter se provado realmente lucrativo a médio e longo prazo para este ramo, há a questão da cadeia produtiva que envolve a distribuição dos jornais. No Japão, ela é feita por pequenas empresas que atuam em um único distrito, sendo responsáveis por inserir encartes e distribuir com eficiência e pontualidade. Nesse sistema, milhares de pessoas estão empregadas.
Contra a internet, pesa ainda uma desconfiança por parte dos leitores, devido a casos do passado de sites divulgando informações erradas. A Wikipedia também não tem boa imagem entre muitos japoneses.
Entretanto, a banda larga está cada vez mais popular no país, mas talvez o principal diferencial será, de novo, o celular. Muitas operadoras já firmaram parcerias com empresas jornalísticas para, mediante uma pequena taxa mensal, enviar notícias diretamente para o celular. Obviamente, isso não é novidade. Só que no Japão, quase todas as pessoas têm (pelo menos um) celular. A concorrência é feroz e qualquer coisa que agregue valor ao portátil é bem-vindo. Se tiver sucesso, o desenvolvimento será rápido. Atualmente, o celular já é capaz de sintonizar programas de TV. Além de “rodar” Metal Gear Solid.
Os computadores pessoas estão em baixa neste lado do mundo. Hitachi parou com a produção e a Sony diminuiu o ritmo do Vaio. Assim, a relação internet-PC pode vir a ser rompida muito em breve em favor de meios mais acessíveis, tanto do ponto de vista de custo quanto facilidade de uso. Uma provedora de banda larga usa o Nintendo Wii como apoio de sua campanha. O Yahoo! tem uma parceria com a Softbank, uma provedora de telefonia móvel, antiga Vodafone daqui.
Voltando para a televisão, notamos que muitas notícias passam muitas vezes no mesmo dia. Não somente o mesmo assunto, mas a mesma matéria. Algumas vezes chega a ser engraçado, pois, para explicar uma coisa, montam gráficos, simulações com bonecos e animações em CG. Pode ser coisa cultural, mas não podemos deixar de pensar que, no tempo gasto discutindo exaustivamente um certo fato, um outro está deixando de ser divulgado e outro não teve a atenção necessária.
Além disso, há fatores regionais. Assim como no Brasil, onde as maiores empresas de comunicação estão no sudeste, no Japão a concentração está na região de Tokyo. Só que o Japão tem muitas metrópoles. O que é chamado de “interior” no Japão é muito diferente do que chamamos de “interior” no Brasil.
Um jornalista de Osaka reclamou que a cobertura da região de Kansai (Hyogo, Osaka, Kyoto, Wakayama, Shiga, Mie e Nara) não recebe a mesma atenção e isso provoca reações esquisitas, como pessoas de Kansai querendo saber primeiro sobre Tokyo e depois de sua região. Talvez mais ou menos como uma pessoa que nasceu e mora em Minas Gerais torcer para o Santos de Santos.
Um dos problemas apontados por esse jornalista é que Tokyo tem seus tabus, evitando comentar, por exemplo, sobre a família imperial, pudor que a imprensa de Kansai, em tese, tem menos. Entretanto, a região de Kansai, sobretudo Osaka, também tem seus tabus – e vice-versa. No mundo ideal, a cobertura seria nacional e completa. Vale lembrar que há os jornais locais (que duram menos tempo, é verdade), além de canais locais de televisão – que passam as propagandas mais inusitadas: depois do estiloso filme do híbrido Toyota Prius, vem o comercial da quitanda anunciando a liquidação de daikon.
Aliás, recomendo visitarem o Museu Liberty em Osaka. Fica perto da estação Imamiya da linha circular. Também conhecido como Museu dos Direitos Humanos. Há seções sobre grupos que sofreram ou sofrem discriminação no Japão, como os Ainu, utinanchu, mulheres, gays, burakumin etc.
O assunto da guerra também é abordado com muito cuidado por aqui. Não sobre a Segunda Guerra e as bombas atômicas, mas as guerras em que o Japão foi o invasor. É um tema sobre o qual eu ainda preciso pesquisar e pensar mais a respeito, por isso, não vou me aprofundar agora. Nos EUA, há diversos filmes e jogos sobre a Primeira e Segunda Guerra, mas pouca coisa sobre o Vietnam, Iraque e Afeganistão. Assim como no Japão há os games Samurai Warriors e Romance of Three Kingdoms são separados. Não me lembro de um crossover. Guerras civis do Japão e da China, mas um game sobre a invasão japonesa nos países da Ásia e na Rússia, nunca vi. Aliás, como vocês sabem, não gosto de jogos que tratam a guerra apenas como combate.
Mas sobre a bomba atômica, a questão é muito chata. Em Hiroshima, há um grande museu (por ¥50, a entrada) e diversos memoriais. Em Nagasaki, idem. Para mim, parece claro que a bomba era desnecessária. A explicação dada nos museus era que a Rússia só estava arranjando algum pretexto para entrar na guerra no lado vencedor e dominar o Japão e a Ásia. Os EUA não queriam isso e jogaram a bomba como demonstração do poder militar. Os militares americanos alegaram que, se não fosse a bomba, os japoneses não iriam parar de lutar e então foi o meio de parar com a guerra e salvar milhares de “vidas de soldados americanos”. Pode até ser verdade que, eventualmente, o Japão estendesse a guerra por mais tempo. Mas, nessa hipótese, provavelmente uma bomba seria suficiente. A escolha dos locais onde seriam jogadas as bombas foram estudados cuidadosamente, como demonstram documentos americanos – em inglês. Áreas residenciais, OK.
Agora você vê como a bomba atômica aparece na ficção mais, digamos, popular. Em filmes americanos, é meio raro. A única menção que me lembro agora é em filmes como Armageddon, em que elas são usadas para salvar o planeta, mas nem são o principal do filme. Geralmente os problemas são causados por russos, alienígenas ou malucos.
Já em S., a bomba atômica é a última arma da raça que se parece com os humanos. Além de requisitar muitos recursos e demorar para ficar pronta, com apenas um clique errado é possível acabar com sua própria base. Mesmo que atinja os inimigos, é uma arma que mata também seus próprios soldados. Assim como na realidade.
Já em M., o próprio diretor do jogo explicitou a referência em entrevista. Ele disse que, pessoalmente, não viveu os problemas da guerra, mas que seus familiares contaram como foi. Então, a mensagem do perigo nuclear consta em seus jogos, especialmente no primeiro – que, na verdade, não é o primeiro, mas é o primeiro da era moderna. Mas ele foi mais longe: deixando um pouco de lado a questão da bomba, passou para o problema dos soldados, sobre suas motivações. A guerra é entre países, dizem, mas quem luta são as pessoas comuns. Os presidentes ficam bem longe.
Mas ter opinião agora é fácil. Talvez todo esse aparato seja necessário para controlar o povo. Hoje, muitas pessoas têm essa idéia de que japonês é um povo calmo. Depois da guerra, talvez tenha sido preciso vender essa idéia como parte da reestruturação econômica. Como descendente, não acho que os japoneses, nem em geral, sejam calmos. Talvez não demonstrem, mas por dentro, acho que a maioria é briguento e teimoso.
Só sendo teimoso para morar em um lugar cheio de terremoto, montanha, tufão e tsunami. Mesmo depois de duas bombas atômicas, reconstruir tudo em menos de 50 anos. Só sendo teimoso viver no Brasil até chegar na sexta geração.
De certa forma, talvez possa ser dito que a Nintendo é o Japão do pós-guerra e o PlayStation é o Japão antigo, ainda que isso pareça paradoxal no atual momento. A Nintendo tem a imagem das coisas bonitas, fofas e pacíficas, assim como o Japão se orgulha de sua natureza e suas paisagens. Já o PlayStation é expansionista, que demonstra sua força. A Nintendo seria Tokugawa e o PlayStation, Nobunaga ou Toyotomi.
Sobre Toyotomi, fui até a casa dele. Ou melhor, até a reconstrução da casa dele, que na verdade era um castelo… (continua)